Why you should care

Mesmo com grandes chances de ser nocauteada, ela vai encarar o desafio.

Imagine que, em 15 dias, existe alguém planejando te dar uma boa surra – arrebentar suas orelhas, triturar as cartilagens do seu nariz, bofetear sua cara, te deixar inconsciente. Tudo isso sendo assistido e apoiado por milhões de ávidos torcedores. Poucos colocam fé que você irá encarar o desafio quando o grande momento chegar, em apenas quinze dias. 14. 13. 12…

Essa é a realidade de Bethe Correia, paraibana de 32 anos.

Se você conhece algo de MMA (sigla para Artes Marciais Mistas, ou o antigo “Vale-Tudo”) é bem provável que tenha visto ou ouvido falar sobre Ronda Rousey, a menina de ouro que estampou capas de revista e conseguiu grandes contratos ao redor do mundo. Mas enquanto todos os holofotes estão voltados para as cascas-grossas americanas, cá estamos numa ruela escura de Natal, uma das cidades mais violentas do Brasil, com a mulher que entrará no ringue com “Rowdy” Rousey – para o que será, sem dúvidas, a maior luta de sua vida. As duas se enfrentarão neste próximo sábado 1º de Agosto, no Rio de Janeiro, para concorrer ao título de campeã do peso galo feminino do UFC.

Os contrastes entre elas não poderiam ser mais evidentes. Faz algumas semanas que Rousey está na mira de inúmeros fotógrafos que registram todos os seus passos em academias da mais alta qualidade e nas praias ensolaradas de Santa Mônica. Ela está rodeada de patrocinadores, com bebidas energéticas garantidas e muitas camisetas para autografar. Já aqui em Natal, em pleno Nordeste brasileiro, “Pitbull” Correia treina nos equipamentos enferrujados de uma academia simples e sem ar-condicionado. Tem o marido como treinador e a irmã como empresária. Os patrocinadores? Bem, até agora não existem.

O único lugar onde as pessoas realmente apostam em Bethe é dentro da sua quente e úmida academia de ginástica em Natal, local que tem se tornado um celeiro de novos lutadores.

 

Para os milhões de espectadores que ligam suas TVs e acompanham as lutas, Bethe simboliza agora a nova esperança do MMA feminino no Brasil, modalidade que apesar de ter crescido bastante no país nesses últimos anos, ainda carrega a má-fama de virar as costas para os seus próprios lutadores. A mídia local parece subestimar a atleta brasileira, não acreditando que ela tenha chance frente à máquina que é a americana Rousey. Nos Estados Unidos, ela é levada ainda menos a sério. O portal esportivo Bleacher Report prenuncia uma derrota de Bethe por nocaute logo no primeiro round. Sites de apostas colocam Rousey em -1500, com um favoritismo de quinze chances de ganhar para uma contra.

O único lugar onde as pessoas realmente apostam em Bethe é dentro da sua quente e úmida academia de ginástica em Natal, local que tem se tornado um celeiro de novos lutadores – como os irmãos Patrício e Patricky Freire – que chegaram com tudo na cena atual do MMA brasileiro, esporte que combina técnicas das modalidades da luta greco-romana e do karatê, entre outras. Uma tarde lá dentro é o bastante para ouvir as histórias dos outros lutadores que presenciaram em primeira mão o entusiasmo e a ferocidade de Bethe nos treinos, o que os leva a acreditar em seu potencial para a luta do próximo sábado. Sua compatriota, a lutadora Daniela Maria da Silva (Dany Fênix), almeja com convicção, “Espero ver sangue na cara de Ronda”.

Bethe Correira

Bethe Correia golpeia Jessamyn Duke na luta do peso-galo feminino durante o evento UFC 172, na Arena Baltimore em 26 de abril de 2014, no estado de Maryland, Estados Unidos.

Fonte Patrick Smith/Getty

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Em plena meia-noite de uma quarta feira, Bethe entra na academia com seus shorts de treino rosa-choque, uma blusinha solta e um sorriso educado. Me cumprimenta com um beijo na bochecha e segue rapidamente para o ringue de treino. Medindo apenas 1,65m, ela mantém boa forma física, mas vendo de fora ninguém acha que ela é uma atleta profissional. Contrariando a impressão que passa, ela já entrou faz tempo no espírito da competição e tem treinado madrugada adentro, para se adaptar ao mesmo horário em que a luta será realizada. Edelson Silva é o treinador com quem ela se casou em janeiro deste ano e que também treinou o Anderson Silva, dono do maior número de defesas do cinturão na história do UFC e, apesar do sobrenome, não tem parentesco com Edelson. Com o zelo de marido, é ele quem cuidadosamente envolve as mãos de Bethe com fita e gazes antes de amarrar as suas luvas amarelas.

Edelson coloca para tocar sua setlist com clássicos dos anos 80 perfeitos para esquentar atividades físicas – onde não pode faltar Eye of the Tiger, claro – e o treino de Bethe começa pra valer. Nada quebra seu ritmo intenso de movimentos naquele ambiente de ar pesado e pouca ventilação. Em poucos minutos de muita transpiração, ela já tem o abdômen encharcado assim como o chão embaixo dos seus pés descalços. Ela aperta os olhos e observa atentamente as mãos do seu marido e treinador, se esquivando com agilidade e o golpeando repetidamente, com o foco de uma atleta experiente em seus minutos decisivos.

É difícil acreditar que, há poucos anos atrás, ela era apenas uma estudante de contabilidade, gorducha e casada, vivendo uma rotina comum. A mais nova de quatro irmãos, Bethe cresceu sendo a filha mais teimosa e “sangue-quente” de um bancário de Campina Grande, cidade do interior da Paraíba. Ela fez faculdade pensando em ser uma devoradora de números, casou-se logo após, e “começou a engordar, como todas as mulheres depois do casamento,” ela brinca, durante sua entrevista exclusiva para a OZY. Até que um dia, a vida deu uma reviravolta.

Quatro anos atrás Bethe decidiu começar a malhar para perder peso. Por uma jogada do destino, Patrício Freire, atual campeão peso-pena do Bellator, treinava na mesma academia que ela em Natal. Ele se lembra do dia em que ouviu fortes estralos de pancadas vindos do outro lado da academia. Era Bethe – surrando um saco de boxe pela primeira vez. “Eu fui até lá olhar quem estava batendo tão forte,” disse ele, “quando cheguei e vi que era uma mulher comum, de corpo não atlético, demorei a acreditar e paralisei ali mesmo.” Naquela tarde, ele tentou recrutá-la para um teste de MMA em sua academia, mas ela hesitou. “Disse a ele que meu marido não ia gostar que me envolvesse com lutas,” conta ela, com timidez. Patrício, com um sorriso no rosto, recorda: “Ela apareceu lá no dia seguinte.”

Alguns céticos dizem que o UFC concordou com a luta – e mais um contrato de oito disputas – simplesmente pelo discurso de Bethe sobre como ela poderia e conseguiria derrotar a sua rival.

 

Sentada no pneu em que ela passou a tarde marretando como forma de exercitar sua força, Bethe nos conta como ela começou a treinar após as aulas de contabilidade. Patrício, surpreso com o rápido progresso de suas habilidades para o MMA, prontamente a convenceu a se comprometer com a luta em tempo integral, e, dentro de poucos meses, ela abandonou sua antiga carreira (para o desespero de seus pais) e logo depois, também de seu marido. Essas mudanças repentinas só alavancaram ainda mais a sua carreira e tornaram seus treinos cada vez mais profissionais. Revelou-se uma lutadora de corpo e alma.

Só havia um problema: como o UFC não permitia lutadores do sexo feminino, as promessas de futuro não eram otimistas. Até aparecer a Rousey. “Ela abriu as portas para as mulheres no UFC, e por isso merece crédito,” diz Bethe. Inspirada por Rousey, como a primeira mulher lutadora do UFC, Bethe começou uma campanha no Twitter para que as mulheres pudessem lutar no Jungle Fight, uma competição que aconteceu em 2013. O lobby funcionou, e foi aí que a carreira de Bethe começou a ganhar impulso, graças à série brutal de golpes que deixou Erica Paes no chão. “Foi aí que, de repente, as pessoas começaram a acreditar em mim,” lembra Bethe, sorrindo. Três meses depois, ela assinou o seu primeiro contrato com o UFC.

Até agora, Bethe se mantém invicta em nove lutas, incluindo confrontos diretos contra duas mulheres que, junto com Rousey e outra lutadora, são chamadas de “as Quatro Cavalas.” Pelo fato de muitos lutadores começarem com um estilo específico – como taekwondo ou Muay Thai – antes de começar a lutar MMA, o treinador de Bethe reconhece como vantagem o fato dela ter iniciado sua carreira como uma verdadeira lutadora multidisciplinar, com habilidades de destaque para o boxe e kickboxe. Ao longo do ano passado, Bethe começou uma nova campanha pois almejava chegar ao topo: Rousey. Alguns céticos dizem que o UFC concordou com a luta – e mais um contrato de oito disputas – simplesmente pelo discurso sobre como ela poderia e conseguiria derrotar a sua rival. Pois bem, ela conseguiu chegar a batalha que tanto desejava.

Apesar dos caminhos terem sido abertos para Bethe, não tem sido fácil para ela e as outras lutadoras nessa indústria. Para lutadoras menos conhecidas, é difícil competir em nível semi-profissional. É um hobby que pode se tornar extremamente caro, especialmente para lutadores do Nordeste, a região mais pobre do Brasil. E depois, naturalmente, vem a cultura. Bethe diz que dentro da sua academia ela é aceita como uma lutadora de respeito, mas fora dali sempre leva bronca de seus amigos – “isso é não é coisa de mulher.” Ela ainda nem tem tantas lutas assim em seu currículo: a batalha vindoura com Rousey é a sua primeira luta profissional em quase um ano.

Foi fora dos ringues, porém, que Bethe deu o passo mais arriscado desta perigosa dança. Naquele clássico discurso pré-luta que acontece antes das competições, Bethe declarou a um jornal brasileiro que acha Rousey psicologicamente fraca e que depois da luta “espero que ela não se suicide.” De fato, o próprio pai de Rousey cometeu suicídio. Posteriormente, Bethe se desculpou dizendo que não conhecia esse lado negro da história de Rousey, mas mesmo assim o mal já estava feito. Rousey não respondeu ao comentário, mas tem soltado algumas palavras ásperas ultimamente. Diz que agora, a coisa ficou pessoal. “Nunca esperei pra bater tanto em alguém na minha vida toda,” enunciou ao Daily Mail. E completou, “Essa é a única vez que vou prolongar uma luta intencionalmente para punir alguém.”

Bethe Correira

Source Shannon Sims/OZY

Há outra razão para que a sorte não esteja do lado de Bethe. A grande jogada de Rousey consiste em desequilibrar a rival, a arremessar direto no chão, torcer seus pulsos, e, por fim, aprisionar a cabeça e os ombros de sua oponente entre suas coxas fazendo-a perder todas as suas forças. Da última vez que lutou, ela executou a façanha em exatamente 14 segundos. Toda essa fama de finalizar as lutas no primeiro round é fruto de sua medalha de bronze no Judô, o que facilitou sua invencibilidade em onze lutas até agora. Até mesmo na academia onde Bethe treina, essa fama de Ronda ser uma grande finalizadora utilizando a chave de braço – o qual os mais experientes chamam de “inescapável” – está preocupando seus fãs mais fervorosos. “Ela deveria estar praticando mais no chão,” escuto um dos seus colegas confidenciar ao outro.

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Com a contagem regressiva dos dias e o mundo inteiro de olhos atentos, Bethe está sob constante pressão. “Estou tentando relaxar a mente agora,” diz ela, respirando fundo a cada vez que profere essas palavras, como se desse um conselho a si mesma. “Essa é a luta da minha vida.” Cristã evangélica, ela tira forças da religião e descreve sua experiência nos últimos anos como “sobrenatural,” recordando que “se você olhar para como tudo começou, eu não deveria nem estar aqui”.

Os rapazes que treinavam na academia vão embora e sentamos de pernas cruzadas no chão do ringue, longe do calor e próximo ao saco de pancadas que ainda balança. Bethe sabe que seus pais estão orgulhosos, mas lhe aperta o coração saber que eles não vão ligar a TV para assistir à luta. “Ver a sua menininha lutando é muito difícil pra eles,” explica ela. Nesses últimos dias, o que vem profundamente inspirando Bethe é saber que ela é um exemplo para as futuras lutadoras do seu país. “Para abrir portas para as outras garotas que sonham com isso…” diz ela, ao massagear as juntas vermelhas e machucadas, “…alguém tem que sofrer.”

Traduzido por: Raissa Monteiro

Colaboração: Chrystian Sandow

A versão original dessa história foi modificada.

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